sábado, setembro 08, 2007

Amar (So Para Quem Tiver Coragem de Ler)

Bebendo o sol que calor teceu,
Tocas-me e sou tua, és meu.
Que nada nos prenda, que neste fim de tarde
Nada senão o Amor nos guarde.

Ela nunca poderia compreendê-lo. Há muito que o tentava fazer: procurar na racionalidade do seu pensar o sentido do seu sentimento. Tudo o que sempre conseguira foram novas perguntas, dúvidas diferentes, medos que atacaram a sua inocência, dores que delapidaram a sua força. E, no entanto, a sua persistência mantinha-se tão presente como sempre. Como se poderia alguma vez compreender a si mesma, o que de facto era capaz de sentir, sem desvendar este mistério da sua existência? Da sua ligação ao Mundo e a Outros?

Sabia que amara no passado, com todo o fervor e toda a dedicação. Amara o suficiente para sentir que seria para sempre. Amara o suficiente para querer a felicidade de alguém muito mais que a sua. Amara ao ponto de julgar não ser possível sentir nada mais intenso por outro ser humano. Amara ao ponto de sofrer na mesma medida, uma perda incalculável, um luto prolongado. E sabia-se capaz de voltar a amar. Porque já o sentira (arriscar-se-ia a dizer da mesma maneira? Com a mesma intensidade?) mais do que uma vez. As que teve de ser. As que lhe aconteceram.

Foi quando deu por si a perguntar o que queria dizer voltar a amar. Será que alguma vez deixamos de amar aqueles que amámos? Seria possível conjugar este verbo em diferentes tempos? Faria sentido? Amor era algo que ela sabia não se sentir por muita gente mas ainda assim também não por uma única. Não podia sabê-lo ao certo mas parecia-lhe que era possível amar várias pessoas de maneiras diferentes no mesmo momento e em diferentes momentos, ao longo do tempo... E ainda assim, a eterna noção – sentida ou aprendida – de que aquele Amor em que pensava se poderia sentir apenas por uma pessoa! Aquela Pessoa! Sabia, à custa de experiência própria, que essa pessoa podia não ser a que lhe traria mais felicidade, a melhor pessoa ou a que mais encaixava na sua vida. Mesmo que se desse o acaso de ser amada de volta. Sabia que Amar podia, por mais paradoxal, ser o pior dos pesadelos, o pior dos castigos. Mas fosse como fosse, terminava no mesmo dilema: o que aconteceria ao Amor que sentia - tão forte e tão intenso – quando, depois do luto necessário, se sentia capaz de amar de novo? Para complicar, sentia algo dentro do peito ao recordar essas pessoas – essas poucas pessoas um dia merecedoras dessa sua entrega incondicional: porquê dar-lhe outro nome que não amor? Mas depois viria o medo. Medo disso significar que não poderia amar tanto alguém de novo, uma vez que parte do seu amor permanecia refém de um passado guardado mas sempre presente. Para ela, seria sempre injusto. Injusto para o passado retirar-lhe o amor que lhe dedicou e que – um dia – foi para sempre, e injusto para o presente não ter todo o seu amor para lhe dedicar, para sempre.

Será que o Amor que temos – se é que o possuímos de facto – se pode expandir eternamente? Ou será como algo que nos habita – ou, nos casos de mais sorte, habita dois corações reciprocamente – e que nos pode abandonar deixando apenas uma marca que é recordada como amor de forma errónea?

Ela não poderia jamais esquecer a primeira vez que fora inundada por esse sentimento colossal. Nenhuma das sensações sairia do seu coração. Tal como não esqueceria as restantes duas vezes em que o sentira. Tal como não poderia nunca deixar de se arrepiar com a lembrança do sofrimento que ultrapassá-lo lhe infligira. O sofrimento descomunal de ultrapassar uma necessidade vã e irracional – mas loucamente persistente - de voltar a sentir-se completa e perdida no envolvimento dessa pessoa. E o sofrimento de enfrentar um medo – e uma culpa ainda maior – por ter sido ela mesma a ver o amor por alguém esvair-se do seu corpo, abandoná-la, e obrigá-la a infligir a dor que conhecia tão bem a alguém tão querido.

E eram essas três recordações que a enchiam e a faziam questionar-se. Três vezes que o Amor lhe mostrou a sua força elevadora, e três vezes que a tinha arrasado. Cada uma delas capaz de encher uma vida, porque em cada uma delas soube que o Amor que sentia era maior do que podia desejar sentir para sempre e desde sempre. Sem dúvida que a haviam construído, e faziam dela o que agora via reflectido nos múltiplos espelhos vivos que a rodeavam. Sem todos esses momentos – de êxtase e dor – não seria aquela que Ele amava. Não teria os olhos nem o espírito que o apaixonara.

Ela ganhara um medo muito grande de sentir-se Amar de novo. Não o dizia, mesmo que por algumas vezes o pensasse, porque tinha medo. Não queria acreditar de novo em algo tão grande para evitar – por certo – o impacto da queda se tivesse de acontecer como acontecera antes. Sabia que quando se permitisse amá-lo, deixaria cair a última barreira de protecção que ambos tinham – quer dos outros quer de si mesmos. E estas questões vagueavam na sua consciência enquanto se debatia: a sua racionalidade e a sua paixão – qual delas mais arrebatadora. Desta vez queria ter a certeza que faria tudo para que não falhasse – daí questionar-se à exaustão sobre o sentido dessas três recordações tão importantes nesse canto - talvez não tão isolado - do seu coração. Queria Amar, amá-lo, com todos os pedaços do seu corpo e alma mas queria afastar primeiro todos os fantasmas, todas as ameaças, todas as perturbações. Amar racionalmente alguém que era perfeito...

Ela nunca poderia compreendê-lo. Não só que não podia fazê-lo dessa forma mas também que a decisão já havia sido tomada por si. O que havia para arriscar já tinha sido arriscado. O que sentia pelo passado continuaria o mesmo – mesmo que não lhe pudesse dar um nome – e o que fazer acerca desse sentimento seria uma escolha que a Vida lhe pediria, se fosse necessário, mas que não podia continuar a perseguir se queria ter um Presente e um Futuro. Tanto tempo a procurar não trair a beleza do que sentira, sem se aperceber que estava a trair um sentimento presente. Foi quando se permitiu sentir um amor que a preenchia e que se sentia asfixiado num coração onde irmãos seus se acotovelavam. E esse amor pôde florescer e encontrar o seu gémeo. Aquele que o habitava a Ele. Quanto aos seus irmãos no coração dela, continuaram a viver – imutáveis no tempo – de mãos dadas com esta nova expressão de Todo o Amor que ela possuía.

Foi quando ela compreendeu. É possível amar alguém para sempre se esses dois amores gémeos permanecerem ligados para sempre. E será tão grande como qualquer amor poderia ter sido antes – nunca diminuído por partilhar o espaço com outros amores. Existem, no entanto, muitas formas da ligação entre amores gémeos ruir. Quer um deles perca o calor que irradia, quer sejam apagados à força pelas circunstâncias, nunca o facto desta ligação acabar pode significar que o Amor não era Verdadeiro – porque teria de o ser para a ligação chegar a existir! E prova disso é a sua permanência no coração de quem amou. Um amor não se substitui nem se esquece. Ela percebeu que alguém com Amor para dar aos outros pode sempre voltar a amar, tal como ela – com todo o fervor e nenhuma culpa. Porque quem tem amor para dar merece ser feliz e trazer a felicidade a outrem com a sua partilha. Quando uma ligação é quebrada – demore mais ou menos tempo – ambos os Amores encontrarão o seu lugar no coração do portador para dar por fim lugar a um irmão que está à espera para existir.

Daí em diante ela acreditou em algo que lhe parecia demasiado simples para nunca o ter compreendido. Escolheu amar. Deixou-se amar e ser amada. Entregou-se ao risco de partilhar o melhor e o pior de si. De novo. E continuando a murmurar preces surdas, desejou verdadeiramente que todos os que tinha amado pudessem amar de novo e que o amor que sentia agora... a inundasse sem mais reservas nem barreiras.

3 comentários:

teresa disse...

:)
Beijinho de roma!
Gosto de ti! *

Cate disse...

Uff.
Eu tive coragem :)

Anónimo disse...

A historia da minha vida :\

E eu estou a aprender a voltar a amar.
E vou conseguir (: